3.1
A pergunta que precisa de conserto
O capítulo anterior terminou com uma pergunta que parecia simples: qual é a inclinação de uma curva? Para uma reta, a resposta é um número só, o mesmo em todo lugar. Para uma parábola, a pergunta não faz sentido do jeito que está: a curva se inclina de um jeito em cada ponto. Antes de responder, precisamos consertar a pergunta.
A tese do capítulo
Uma curva não tem inclinação; ela tem uma inclinação em cada ponto. Essa é a mudança de olhar que este capítulo inteiro tenta produzir: a derivada não é uma propriedade da curva, é um valor em um lugar. Tudo o que vem depois, regras, tabelas, atalhos, é consequência dessa frase.
Repare no que a frase pede de você. Quando alguém diz “a derivada de é ”, está dizendo uma coisa verdadeira, mas comprimida: o que existe, antes de qualquer fórmula, é que em a parábola sobe a uma taxa de , em a uma taxa de , e em ela nem sobe nem desce. A fórmula é o resumo de infinitas respostas locais. Este capítulo constrói uma delas; o próximo constrói o resumo.
3.2
Duas pontas de uma reta
Comece com dois pontos. Fixe um deles, em , e deixe o outro a uma distância . A reta que passa pelos dois é a secante, e a inclinação dela se calcula como sempre: a variação de altura dividida pela variação horizontal.
Nada aqui é novo. O numerador é quanto a curva subiu entre os dois pontos; o denominador, quanto você andou para chegar de um ao outro. Se for grande, a secante é uma aproximação grosseira do que a curva faz perto de : ela corta a curva e ignora tudo o que acontece no meio. Se for pequeno, a secante começa a se confundir com a curva naquele trecho.
3.3
Quando h encolhe
O que é novo é o que acontece quando encolhe. O segundo ponto desliza pela curva em direção ao primeiro, a secante gira, e as inclinações que ela vai assumindo se aproximam de um número. Esse número, quando existe, é a derivada de em . A reta que tem essa inclinação e passa por é a tangente. Ela não “toca uma vez”: ela é o limite das secantes.
Definição 3.1 derivada em um ponto
Seja uma função definida num intervalo aberto que contém . Dizemos que é derivável em quando o limite existe. Nesse caso o valor do limite se chama derivada de em e se escreve .
Repare no quando: o limite pode não existir. Em , no ponto , as secantes pela direita têm inclinação e as pela esquerda, . Elas não se aproximam de um número só, e por isso o gráfico de tem um bico na origem, e nenhuma tangente ali.
Exemplo 3.1 a parábola, num ponto qualquer
Tome e um ponto qualquer. O quociente de Newton se simplifica antes de o limite entrar em cena:
- Para , dividir por é permitido: .
- Agora encolhe, e se aproxima de . Logo .
Leia o resultado ponto a ponto, não como fórmula: em a parábola sobe a ; em ela desce a ; em a tangente é horizontal. Três lugares, três números.
3.4
Um número, com sinal
Vale insistir na palavra número. A derivada em um ponto é um número, com sinal: positivo onde a curva sobe, negativo onde desce, zero onde ela para para mudar de ideia. Quem lê deve ler “andar um para a direita, a partir de dois, custa três de altura”, e não uma fórmula.
A derivada mede o quanto a curva está disposta a subir, exatamente ali, e em nenhum outro lugar.
Esse jeito de ler resolve, de graça, metade dos problemas de aplicação que aparecem nas provas. Velocidade é a derivada da posição: um número, por instante, que diz quanto a posição está disposta a mudar naquele momento. Taxa de crescimento de uma população, custo marginal, vazão: é sempre a mesma pergunta, feita a uma curva, em um ponto.
3.5
Em todos os pontos, uma função nova
E se fizermos isso em todos os pontos? Para cada do domínio em que o limite existe, é um número; a regra que leva a é, portanto, uma função. Ela se chama função derivada e carrega o mesmo nome, . Tome a curva
e arraste o ponto. A tangente gira, e a curva de baixo se desenha sozinha, valor a valor: é a inclinação, medida em cada lugar.
Figura 3.1 a derivada como inclinação
arraste o ponto, ou use as setas
Duas coisas para notar na figura. Onde a curva de cima é íngreme, o valor de baixo é grande, em módulo; onde ela é quase plana, o valor de baixo se aproxima de zero. E nos dois pontos em que a tangente fica horizontal, a curva de baixo cruza o eixo: é ali que troca de direção, e é por isso que máximos e mínimos se procuram nas raízes de . Isso é assunto do capítulo 4; aqui basta ver que a informação já está toda na figura.
3.6
Exercícios0 de 2 praticados
Dois exercícios curtos, no corpo do texto. O primeiro é leitura de figura; o segundo é o exemplo 3.1 aplicado.
Exercício 3.1 leitura de sinal
Na curva da figura 3.1, o que a derivada diz sobre o ponto ?
Certo. Em a cúbica está descendo, e . Sinal negativo, curva descendo: a mesma informação, dita de dois jeitos.
Ainda não. Volte à figura 3.1 e leve o ponto até : a tangente aponta para cima ou para baixo?
Lembre o sinal: positivo onde a curva sobe, negativo onde desce, zero onde ela para. Em , a curva da figura já passou do máximo e ainda não chegou ao mínimo.
Exercício 3.2 um número em um lugar
Seja . Qual é a derivada de no ponto ?
Certo. . Andar um para a direita, a partir de três, custa seis de altura.
Ainda não. Leia o exemplo 3.1 de novo: para , a derivada em qualquer ponto tem uma forma simples.
Falta o número. Escreva a sua resposta no campo e confira.
Pelo exemplo 3.1, em qualquer ponto . Aqui, .
Resolução
Pelo exemplo 3.1, para vale em qualquer ponto . Em :
Leia o resultado: perto de , a parábola sobe seis vezes mais depressa do que anda. A tangente ali tem inclinação e passa por .
O que ficou estabelecido
- Inclinação de curva é uma pergunta por ponto. A pergunta “qual é a inclinação da curva?” não tem resposta; “qual é a inclinação da curva em ?” tem.
- A secante é o que você já sabia calcular. O quociente de Newton é a inclinação da reta por e .
- A derivada é o limite das secantes. Quando e o quociente se aproxima de um número, esse número é ; a tangente é a reta com essa inclinação.
- É um número com sinal, e feito em todos os pontos vira uma função. Positivo sobe, negativo desce, zero para. A regra é a função derivada, assunto do capítulo 4.
